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segunda-feira, 6 de junho de 2011

A massacrante felicidade dos outros...

Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco. Há no ar um certo queixume sem razões muito claras.

Converso com mulheres que estão entre os 40 e 50 anos, todas com profissão, marido, filhos, saúde, e ainda assim elas trazem dentro delas um não-sei-o-quê perturbador, algo que as incomoda, mesmo estando tudo bem. De onde vem isso?

Anos atrás, a cantora Marina Lima compôs com o seu irmão, o poeta Antonio Cícero, uma música que dizia: 'Eu espero/ acontecimentos/ só que quando anoitece/ é festa no outro apartamento' .

Passei minha adolescência com esta sensação: a de que algo muito animado estava acontecendo em algum lugar para o qual eu não tinha convite. É uma das características da juventude: considerar-se deslocado e impedido de ser feliz como os outros são, ou aparentam ser. Só que chega uma hora em que é preciso deixar de ficar tão ligada na grama do vizinho.

As festas em outros apartamentos são fruto da nossa imaginação, que é infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias. Os notáveis alardeiam muito suas vitórias, mas falam pouco das suas angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas fraquezas, então fica parecendo que todos estão comemorando grandes paixões e fortunas, quando na verdade a festa lá fora não está tão animada assim.

Ao amadurecer, descobrimos que estamos todos no mesmo barco, com motivos pra dançar uma valsa pela sala e também motivos pra se refugiar no escuro, alternadamente. Só que os motivos pra se refugiar no escuro raramente são divulgados pra consumo externo.

Todos são belos, sexys, lúcidos, íntegros, abastados, sedutores, social e filosoficamente corretos. Parece que ninguém, nenhum deles, nunca levou porrada. Parece que todos têm sido campeões em tudo'. Fernando Pessoa também já se sentiu abafado pela perfeição alheia, e olha que na época em que ele escreveu estes versos não havia esta overdose de revistas que há hoje, vendendo um mundo de faz-de-conta.

Nesta era de exaltação de celebridades - reais e inventadas - fica difícil mesmo achar que a vida da gente tem graça. Mas tem. Paz interior, amigos leais, nossas músicas, livros, fantasias, desilusões e recomeços, tudo isso vale ser incluído na nossa biografia. Ou será que é tão divertido passar dois dias na Ilha de Caras fotografando junto a todos os produtos dos patrocinadores?
Compensa passar a vida comendo alface para ter o corpo que a profissão de modelo exige? Será tão gratificante ter um paparazzo na sua cola cada vez que você sai de casa? Será bom só sair de casa com alguém todo tempo na sua cola a título de segurança? Estarão mesmo todas essas pessoas realizando um milhão de coisas interessantes enquanto só você está em casa, lendo, desenhando, ouvindo música, vendo seu time jogar, escrevendo, tomando seu uisquinho?

Tenha certeza que as melhores festas acontecem sempre dentro do nosso próprio apartamento.

(Martha Medeiros, gaúcha, 44 anos, Jornalista e Poeta)

2 comentários:

Su disse...

Bom dia amiga querida! Fantástico esse texto e o resgate que você fez... Esse mundo de "ilusão" é tão triste, vazio... sabe, detesto revistas de moda e corpo, elas vendem uma imagem "vazia" de que felicidade se encontra na matéria, mero engano... longe de ser assim. Não assisto novelas também, tenho a mesma sensação, uma visão de mundo e valores distorcidos, na verdade poucos valores e uma moda que se lança para o público em geral que passa a crer que está vivendo uma "novela" uma fantasia e acaba contando muitas vezes com um final feliz... sem fazer qualquer esforço para que seja de fato feliz, acreditando que tudo se ajeita... Sei lá, posso até parecer radical, mas entendo que o melhor canteiro é o meu interior, que matéria, não é nada e que saúde é tudo... assim vivo feliz com o que possuo e não me apego ao desnecessário... Amiga, me empolguei...hehehe.... Beijinhos e um lindo dia!!! Su. (obrigada pelo seu carinho, faço sempre a oração do anjo agora!)

Anne Lieri disse...

Leninha,que maravilhosa essa cronica de Martha Medeiros!Principalmente com a internet,tudo parece perfeito,poucos se mostram como são de fato,e a vida real não é sempre assim!Belo texto!Pode usar as imagens e tudo que quiser para o blog da sua netinha.Depois me passe o link que quero conhecer!bJS,